Na rede social, jornalista é ele mesmo e não a empresa

Quando um jornalista aparece na TV investido da credibilidade de ser o “editor” de tal assunto daquela emissora, ou de um jornal, a quem “pertence” essa credibilidade: a ele ou ao meio de comunicação? E quando esse jornalista tem seguidores no Twitter? Quem tem direito a esses seguidores? Assim como a legislação, os códigos de ética e o rationale por trás das novas relações no mundo da comunicação digital estão começando a ser escritos. Ninguém saber a resposta exata a todas essas perguntas, mas os atritos já começaram.

A ida de uma editora de economia da BBC para a concorrente ITV, na Inglaterra, deu início a uma série de discussões em torno de uma polêmica aparentemente inócua, mas definitivamente concreta. Laura Kuenssberg trocou de emissora, mas manteve a sua conta no Twitter @BBCLauraK.  Ela criou uma nova com o nome da sua nova empregadora, mas o fato é que essa nova conta simplesmente absorveu o capital acumulado pela conta anterior.

Um momento: estamos falando de capital aqui? Dinheiro? Talvez não em espécie, mas dinheiro sim. Laura Kuenssberg tirou da BBC a atenção de pelo menos 60 mil seguidores no Twitter e em última instância, esse grupo de pessoas sem dúvida representa um capital – economicamente falando. O debate que se deu é em torno da dúvida: ela tinha direito de fazer isso?

O incidente serviu para despertar a atenção das empresas para a falta de uma política em relação às atividades em redes sociais de seus profissionais. Até pouco tempo atrás, a presença de seus profissionais no Twitter era encarada com desdém. Não sei de nenhum profissional de mídia que seja pago pelo próprio empregador pela sua atividade no Twitter ou no Facebook. Na visão das empresas, essa atividade é um “ônus” que o profissional banca. Sob esse ponto de vista, Laura Kuenssberg está mais do que no seu direito de show the finger para a BBC e ficar com os seguidores que ela cativou, mesmo que seja usando o status conferido pelo cargo que ela tinha na emissora.

As empresas de informação tratam seus profissionais, há décadas, como se fossem senhores feudais que são proprietários da atividade intelectual deles. Qualquer coisa que eles escrevam pertence a elas – na visão delas. Mas isso é uma falácia que virou verdade pelo domínio dos meios de produção que elas detinham. Sei que o papo está ficando meio marxista demais para o século XXI, mas algumas das definições do alemão foram basicamente definitivas. A perversão do capital e suas idiossincrasias são algumas delas. Também há décadas, os empregadores foram tirando as seguranças trabalhistas dos profissionais pensando que estavam aumentando seus lucros. Estavam, mas também estavam abrindo as prerrogativas para que eles se sentissem sem nenhum vínculo com essas empresas. Na cultura do freelance, a empresa só tem aquilo pelo que ela paga. E elas não pagam por nada além das laudas compradas. Traduzindo: o jornalista, foi levado a ser o “freela fixo” (uma aberração jurídica criada no jornalismo brasileiro para diminuir custos das empresas) porque a empresa queria gastar menos. No “freela fixo”, tudo o que o jornalista faz – exceto aquilo pelo que é pago – é dele.

Ok, sei que a discussão aqui está sendo gerada por um acontecimento na Inglaterra e não aqui, e toda a situação aqui desenhada é peculiar ao Brasil. A questão é que a expansão da discussão sobre a propriedade intelectual da produção do jornalista fora dos serviços para os quais foi comissionado é daqui também. Até outro dia, não poucas empresas ofereciam aos seus jornalistas de manter um blog dentro da estrutura da empresa como “uma chance” ao jornalista de ter mais exposição. Hoje, até elas já tem vergonha de oferecer tal “chance” e sabem que se quiserem conteúdo num blog, precisam pagar por isso separadamente.A atividade de um jornalista (ou profissional de comunicação, que é um termo mais adequado aos novos tempos) vai muito além da matéria que ele imprime na página de um jornal. A integração dele na sociedade através de seus inputs é basicamente ligada à sua profissão, mas esse adicional de trabalho, se não for remunerado, é capital dele e não da empresa. Tudo indica que as empresas devem começar a pensar em incorporar ao trabalho dos jornalistas a sua atividade em redes sociais – mas terão de pagar por isso. Senão, a empresa pode chorar o quanto quiser.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.