Na Guerra da pirataria, quem é o pirata, afinal?

A batalha perdida da indústria de entretenimento contra o “inimigo” da pirataria teve um novo e sensacional capítulo com uma sentença na justiça americana isentando o site Hotfile de responsabilidade na “pirataria” feita pelos seus usuários. A justiça entendeu que o site (que é uma variante do mais famoso Rapidshare) não tem intenção no processo. A conclusão lógica e óbvia aponta para a derrota da megaindústria  do entretenimento, cuja negação não é por convicção mas por circunstância.  Um outro olhar para o problema tornaria as coisas mais lógicas e menos dolorosas, mas acabaria com a mamata de muitos atravessadores.

No ano passado, um artigo feito pelo  International Development Research Centre apontou claramente que a maioria dos argumentos contra a pirataria são falaciosos e que não se trata de um problema legal, e sim, de mercado. Em linhas gerais: se a indústria de entretenimento cobrasse um preço justo pelo seu produto, ninguém baixaria nada em torrents. O problema é que o shift tecnológico digital mudou as regras do jogo e  foram para o saco benefícios que a indústria mantinha há séculos (mas cujos direitos eram filosoficamente discutíveis, como os de manter trancada a produção de conhecimento). Wake up or die.

Suponha que pirataria seja quando um indivíduo vende um conteúdo de outro sem ter esse direito. Na transação entre dois indivíduos sem cobrança, não há pirataria, certo? A indústria jura que há. Mas não há. A disseminação de conteúdo existe desde que a humanidade existe e se é justo impedir que alguém que não os detentores desse direito lucrem com essa distribuição, é pertinente comparar a caça às bruxas do p2p à repressão que a Igreja Católica fazia na Idade Média para impedir que as pessoas tivessem acesso à informação existente nos livros. Os padres já sabiam então que information is power.

O artigo do IDRC mostrava outras falácias da bruxaria da pirataria, como a inexistência de uma ligação comprovada entre crime organizado e pirataria e que uma readequação de preços seria muito mais eficiente para trazer o mercado de volta à normalidade. Aí, um outro problema. Um dos aspectos abordados no livro The Hollywood Economics fala de como a indústria cinematográfica subverteu seus custos para atender à indústria e não à atividade cinematográfica. Em outras palavras: hoje, os filmes são feitos para dar dinheiro a advogados (são quem mais ganha dinheiro em Hollywood), distribuidores, seguradoras, empresas de efeitos especiais e etc. Diretores, atores, roteiristas e afins – que são quem de fato gerenciam aquela atividade – são players secundários financeiramente. Ou seja: o cinema não tem nada a ver com cinema e por isso os filmes são tão caros – para alimentar um monte de gente que não tem a ver  com  a atividade.  Vendo assim, quem é o pirata: quem baixa filmes nos torrents  ou a indústria que “sequestrou” a capacidade da comunidade de artistas cinematográficos de fazer filmes?

A sanha financeira para alimentar essa indústria de agregados montados em cima da megaindústria de entretenimento é a que torna os custos inviáveis e a razão pela qual a guerra à pirataria existe. É possível gerar conteúdo de entretenimento a custos muito mais acessíveis e pelos quais a maioria das pessoas estaria disposta a pagar preços realistas. A evolução tecnológica possibilitou que os custos de um filme sem exageros hollywoodianos seja hoje muito menor do que era há dez anos. O atrito agora é uma adequação normal em que uma indústria ineficiente precisa se readaptar à realidade – fazer filmes sem torrar dinheiro inutilmente – mas isso implica em fazer a indústria abrir mão dos anéis para manter os dedos. Historicamente, tiranos no poder põem tudo a perder para não abrir mão de parte de sua força. E é difícil imaginar que desta vez será diferente.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.