Hulu encanta os gigantes digitais – com razão

Agora o bicho vai pegar. A notícia da provável oferta de um dos titãs digitais Apple, Yahoo ou Google pelo Hulu é um sinal de que eles definitivamente vão entrar na seara além da tecnologia e partir para a entrega de conteúdo num device que compita com a televisão. Os atuais proprietários do Hulu (NBC, Fox e Disney) certamente vão colocar a mão numa boa grana, mas a entrada da elite digital no segmento vai ter um efeito bombástico nas discussões de distribuição e direitos autorais de conteúdo.

Os grandes geradores de conteúdo do mundo (estúdios e produtoras americanas comissionadas por grandes redes de TV) ainda temem a “pirataria” acreditando numa falácia que é similar a de se imaginar que o mundo gira em torno do sol. O que acontece hoje é que o conteúdo circula sem pagamento porque é muito caro – muito mais caro do que deveria ser. Sistemas de distribuição como o Hulu são o futuro ululante (sem nenhuma tentativa de trocadilho) porque são a última chance das megacompanhias de venderem seus conteúdos, sob controle, para uma base de clientes suficientemente grande que as convença a exigir pagamentos aceitáveis dentro da economia digital.

Segundo o Financial Times, o valor do negócio será definido pelos contratos de direitos exclusivos que o Hulu tiver. Quanto mais longos eles forem, maior será o valor de mercado do site. O diretor-executivo do Hulu já tinha criticado as redes de TV tradicionais dizendo que elas tinham comerciais demais. A provocação tem a ver com a questão dos modelos de negócios dinossáuricos das mídias tradicionais: as TVs não tem comerciais demais porque querem, mas porque são como velhos Mustangs V8 cujo motor bebe gasolina furiosamente para sustentar tanta potência. O Hulu propõe um business model que é um tapa na cara das TVs, mas o problema é que essas TVs (e muitos estúdios que também pertencem a proprietários comuns) são as que geram o grosso do conteúdo que o Hulu tem de vender. Por isso, a importância da duração dos contratos.

O que os gigantes digitais já devem ter se dado conta é que o Hulu é uma boa chance para conseguir entrar nas redes sociais através do fornecimento de um serviço compartilhado, ajustável e adequado para o usuário que não desconecta nunca. Como valor agregado, é ainda mais valioso para empresas que não estão na ponta da exploração do social networking (como o Yahoo, por exemplo) ou para quem está tentando implantar a própria tenda (como o Google com o G+).

A geração de conteúdo como conhecemos hoje é formatada em cima do modelo de negócios da TV e tende a mudar radicalmente no médio prazo, da mesma forma que o talento foi drenado dos estúdios de cinema para a dramaturgia televisiva (você não tinha reparado que é muito mais comum aparecer uma grande série como House do que um filme decente das majors americanas?) porque as receitas da TV eram mais seguras e custavam muito menos do que fazer um longa-metragem. Hoje, Hollywood vive de um ou outro filme interessante, deixando sua maioria emagadora para os filmes de ação repletos de efeitos especiais e com roteiro no brainer, enquanto séries como House, Dexter, True Blood e Mad Men são nitidamente mais inteligentes.

O Hulu tem tudo para ser o equivalente digital à seringa hipodérmica  dos modelos de teoria da comunicação em mass media surgidos na metade do século XX, dmas sem a malevolência ideológica que aqueles modelos previam. Ele terá como deixar o usuário de comunidades digitais ainda mais entretido, pagando pouco e interagindo com o conteúdo. O fato de Apple, Google e Yahoo estarem prestando atenção nisso é um sinal dessa tendência. Se alguém quer acabar com a pirataria, que ataque aí. E, de quebra, ainda fature horrores.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.