Grant-Campbell: as celebridades caçadoras de tabloides

Nada como um dia após o outro. Na última década, poucos personagens foram tão caçados, vilipendiados e humilhados nas capas dos red tops ingleses quanto Naomi Campbell e Hugh Grant. Naomi foi uma fonte inesgotável de escândalos: cocaína, diamantes dados por genocidas, namorados que gostavam de bater; Grant, quando namorava a deslumbrante Liz Hurley, foi pego recebendo um “carinho” de uma prostituta em LA. Agora, no irromper do phone hacking scandal, os dois foram responsáveis por matérias que estão levando ao túmulo os seus inquisidores particulares. É difícil de imaginar o que acontece na vida real – a maior fornecedora de grandes histórias. Quem poderia imaginar que duas matérias jornalísticas viriam da “matéria prima” dos tabloides?

O feito de Grant é mais complexo. Ele, cansado de ser perseguido pelos tabloides, decidiu se vingar. Com um microfone escondido, chamou um ex-editor de um tabloide para uma cerveja e arrancou dele uma série de confissões comprometedoras. A matéria foi publicada na revista independente The New Statesman, em Abril, e foi fundamental para aumentar o fosso do NOTW, porque o ex-editor deu o serviço todo, incriminando Andy Coulson (ex-editor do NOTW e ex-assessor de comunicação do medíocre premiê David Cameron), Rebekah Brooks, James Murdoch, etc. Um furo. E quando o escândalo do NOTW explodiu de vez, Grant foi a público colocando pressão máxima sobre o lado negro da força.

Campbell foi mais sutil (e sua participação ainda não teve consequencias, mas pode vira ater). Ela entrevistou, para a revista GQ, há quatro anos, o ex-editor do Daily Mirror e News of The World, Piers Morgan. Morgan é um personagem repulsivo. Imagine David Brent, da série The Office. Agora adicione ainda mais arrogância e uma completa falta de escrúpulos. Na entrevista, Campbell aperta e Morgan confessa que fazia as mesmas práticas ilegais do NOTW quando estava no Daily Mirror (que não pertence aos Murdoch). Mais: admite sem meias palavras que os tabloides e seus editores (entre os quais ele se inclui) sabem que os paparazzi e vendedores de histórias escandalosas são “vermes” e que não é porque o tabloide publica a matéria que “não sabe que ela é horrível”, mas porque ela vende.

A confissão do arrogante e superconfiante Morgan poderia ser só mais uma estrela em sua vasta coleção de pecados, mas o detalhe é que hoje, ele é o prime anchor da CNN, tendo assumido o horário do lendário Larry King, que se aposentou no ano passado. Assim, a CNN, passou a ter como personagem principal de seu jornalismo um candidatíssimo a ser tragado pelo escândalo do phone-hacking em breve, uma vez que tudo indica que a implosão do NOTW deve atingir outros jornais e ex-editores – exatamente o perfil de Morgan.

Numa palestra dada há algumas semanas, o jornalista Paulo Markun falou do modo como o jornalismo estava se reinventando e como o modelo atual estava esgotado. Ele mencionava novas formas de se fazer jornalismo através da captação e depuração de informação (programas como o Wondergraphs por exemplo). Contudo, Campbell e Grant (mais ele, menos ela) tiveram insights claríssimo de jornalismo nos modo mais clássico da profissão, algo que os jornalistas mesmo já esqueceram de fazer – não por culpa só deles, mas por conta de deadlines apertados, chefes que exigem matérias com subcelebridades fúteis, entrevistas com “craques” de 18 anos que nunca ganharam nada e políticos medíocres que fundam partidos que não são “de direita, nem de centro, nem de esquerda”. As histórias relevantes acontecem com a mesma profusão de sempre e as pessoas precisam saber delas. O que os meios de comunicação precisam reavaliar é como colocar em seus planos de negócio a necessidade de cumprirem seus papéis de órgãos de informação. Senão, podem sempre se assumir como revistas de fofocas e não viver mais dentro do armário.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.