#fuckyouwashington

Num final de semana com tiroteio na Noruega, Murdoch na defensiva e os Estados Unidos pensando em calote da dívida, era difícil que alguma iniciativa marginal pudesse causar celeuma. Mas (ainda que sem o punch das outras), um desabafo do mediathinker Jeff Jarvis, relembrou um ícone de outros tempos e depois de despertar uma breve sensação de poder coletivo, desenhou um novo perigo dos protestos virtuais. #fuckyouwashington.

Jarvis disse em seu blog como iniciou-se a saga do #fuckyouwashington. Ele, como cidadão – e não necessariamente como teórico – ficou irritado de ver como os republicanos norte-americanos estão conseguindo dar um nó no próprio cérebro ( n. do r: que nunca foi brilhante, mas agora está atingindo níveis de paramécio) com questão da renegociação da dívida interna do país e foi ao Twitter e postou sua raiva. Seguindo a sugestão de um amigo, transformou o protesto num hashtag: #fuckyouwashington.

Jarvis, na verdade, mostrou-se muito antenado com o sentimento geral de uma população que vem sendo currada pela política americana que salva banqueiros e ferra mutuários da casa própria; que banca trilhõe spara guerras no Iraque e faz cara feia para gastos com saúde. Pronto. O #fuckyouwashington espalhou-se como fogo na palha seca. A imagem acima é um print dos trends do twitter no momento em que o hashtag estava campeando.

O fato das pessoas se indignarem e da iniciativa de Jarvis relembrou o mítico discurso de Howard Beale, o âncora da rede de TV do filme “Network”, de 1976. Beale, interpretado por Peter Finch, ensandecido pelo álcool, depressão e ameaça de perder o emprego por conta de seus índices de audiência decrescentes, surta ao vivo e faz um discurso conhecido como “I am mad as hell”, passando de apresentador demissionário a fenômeno semimessiânico da TV – que obviamente aproveita disso, mesmo ela mesma sendo alvo dos protestos de Beale.

Jarvis festejou o ocorrido, parte provavelmente por vaidade (compreensivelmente e merecidamente), mas parte por uma felicidade que eu também senti, de ver que nem todo mundo sofreu um processo de debilização mental e era capaz de reclamar de um governo fraco, de um Congresso estúpido, cheio de red necks  ignorantes que não têm noção que a capacidade de roubar do povo chegou ao limite.  O inesperado e frustrante da questão foi que, segundo o próprio Jarvis, as pessoas começaram a comentar o hashtag e tiraram o foco do problema. “Nerds”, resmungou no Twitter ainda neste fim de domingo.

No filme de 1976 , uma reação coletiva reprimida só poderia vir através de um meio de comunicação de massa. Hoje, a corrente mudou de sentido, ficando mais fluida. Contudo, o episódio com Jarvis mostrou que as iniciativas precisam de engajamento e atitude. Dar um “like” no Facebook ou retweetar algo sem se aprofundar tem um sentido tão efêmero quanto não fazer nada. A lição de moral do episódio veio na pequena conscientização que o poder traz responsabilidade, ainda que nuna pequena fração. Todo mundo que entrou na onda do #fuckyouwashington porque achou cool e não fez mais nada, só colaborou para desvirtuar a ideia. Os protestos na Tunísia, Egito e Síria foram organizados na rede, mas feitos na vida real. Um tweet só não faz verão.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.