Estúdios têm de escolher: cedem o conteúdo por menos ou por nada

Entre as muitas mudanças tresloucadas que o mercado de conteúdo está dando na digitalização compulsória do planeta, está a batalha por conteúdo,s contratos, licenças, autorizações, fees, janelas de lançamento, exclusividades e outros bichos que envolvem a produção de conteúdo em vídeo. Se o establishment da produção de conteúdo vinha dando uns poucos passos adiante na compreensão do problema (onde o Hulu se apresentava como uma opção com boa aceitação na indústria), já parou de dar e provavelmente vai andar para trás. 

O anúncio da Fox (uma empresa da News Corporation, que, coincidentemente, não atravessa seus melhores dias) de que a empresa vai tirar da oferta do Hulu o conteúdo disponível para não assinantes de seu serviço a cabo ou satélite. Michael Weinberg, do Public Knowledge, observou que a ideia do Hulu de oferecer conteúdo com delay de lançamento em relação aos assinantes da TV tinha sugerido que a indústria televisiva tinha aprendido alguma coisa da pirataria da música. Weinberg fala o ululante: a maioria dos consumidores preferirá pagar uma tarifa baixa para ter o conteúdo se isso significar comodidade do que pegá-lo de graça na Internet. O crescimento do Hulu, que multiplicou a quantidade de fornecedores de conteúdo por 125 e a de anunciantes por 50 em poucos meses, atestou como o serviço havia caído na faixa aberta pela demanda. A partir daí, os produtores de conteúdo vem jogando um jogo de aperto com os usuários que culminou com a decisão da Fox.

A Fox de fato ao menos guarda coerência. Depois de ter gerenciado espetacularmente a compra do MySpace, pagango cerca de US$600 milhões para vendê-lo após três anos por 5% do valor, segue acertando em cheio na cultura digital. A sua decisão de retirar o conteúdo do Hulu já vem sendo celebrada como a data de “lançamento da temporada de pirataria online 2011”. O Hulu, como bem observa Weinberg, já tinha desmentido um veredicto da Slate que dizia que o jeito mais fácil de pegar conteúdo na rede é baixando-o ilegalmente. A Slate erra (aliás, erra com alguma freqüência). O Hulu, ainda que em sua infância, mostrou que pirataria é um problema de mercado. A um preço justo, o usuário paga pelo conforto, mesmo que tenha de esperar uma janela em relação à TV.

A miopia da NewsCorp, famosa do outro lado do Atlântico, uma vez que os Murdoch, Rebekah Brooks e os editores do News of The World jamais viam nada do que se passava na redação, vai dando as cartas no posicionamento da Fox. Pouco se perderá. A Fox deixou de ser um estúdio criativamente importante (mesmo séries como o genial House não são obra do tutano da Fox, mas de produtoras como a BadHat harry) e hoje é um burguês gordo que dá as cartas a partir da força bruta, e não com a sutileza de um estrategista que planeja o futuro.Depois de demonstrar um feeling digital com o MySpace, os Murdochs vão com tudo para cima do Hulu. É como a lenda do diretor da Decca Records que, ao reprovar de uma vez os novatos David Bowie e Marc Bolan, já com o peso de ter reprovado uma banda de Liverpool chamada The Beatles, disse: “Tirem esses cabeludos da minha frente e me tragam substitutos para os Beatles”. É talento negocial puro!

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.