Desconstruindo as notícias e destruindo a crítica

Um artigo de um designer bacaninha sobre como as publicações tratam mal a localização de suas notícias foi publicado na semana passada. Apesar do artigo ter sido desancado com fúria máxima por várias pessoas, ele levanta questões interessantes e algumas delas poderiam ser observadas por âmbitos diretivos das empresas de informação. Há muito para se pensar.

Andy Rutledge, o designer bacaninha, diz que o “negócio de notícias está falido”. Ele não deixa de ter razão, uma vez que a commodity tornou-se um ônus graças à imbecilidade das próprias empresas de terem tentado matar a concorrência através de um sistema de dumping. Elas conseguiram, mas como um mau antibiótico, criaram uma nova concorrência, imune à bactéria do dumping. Ele seguia muito bem na sua crítica, falando da dificuldade de integrar o design à necessidade do usuário de ler a notícia, confusão com ads, etc, quando daí teve uma infeliz ideia: a de tentar colocar na cruz o site do NYT.

Ok, o NYT não é o melhor site para se ler, tem alguma poluição, uma política questionável de paywall etc, mas não é um completo lixo. Daí, Rutledge começou a fazer uma crítica que era muito parecida com a que um professor da USP (ou de outra boa universidade) provavelmente faria, falando de como é um absurdo não haver um editor de fotos na redação que pudesse discutir, matéria a matéria, qual a melhor foto a ser usada. Ou seja: coisa de quem não sabe o que é a profissão, se esconde com medo na  vida acadêmica e critica – sem saber fazer (óbvio, não é o caso de todos os acadêmicos, mas certamente, de uma parte considerável).

Um engenheiro que trabalhou no Times durante sete anos destruiu a crítica do designer bacaninha fazendo ele parecer um idiota completo. Depois de sentir vergonha por ele ter decidido escrever qualquer coisa, li novamente o texto do designer e constatei, livre de emoção, que muitas das observações dele tinham de fato fundamento e certamente se aplicam à incompetência que as empresas jornalísticas têm em se livrar de heranças culturais que vêm de indústrias anteriores (como, er…jornal). Segue uma lista de algumas das observações de Rutledge que podem ser aproveitáveis.

  • Menus muito longos: de fato, alguns blogs que pensam em englobar o universo acabam fazendo menus que jamais terminam e que raramente conseguem ter outra função além de uma lista telefônica de conteúdos. Só servem para o usuário que sabe o que quer procurar. Nesse caso, uma busca em Ajax no alto da página, já resolveria. Uma boa taxonomia e categorização serviria para dar 99% da precisão do menu que, com 7.242 itens, não é viável de usar.
  • “As pessoas procuram por…”: uma síndrome na gerência de websites. “As pessoas querem saber onde estão os vídeos”. Na verdade, essas são observações normalmente que os encarregados fazem nas suas próprias casas, desconhecendo o poder de pesquisas ou estatísticas. Se as pessoas procuram “vídeos”, algo está errado com a distribuição do conteúdo. Normalmente o usuário está interessado num assunto. Ninguém entra num site pensando que quer ver um video, seja ele do Osama Bin Laden ou do gol do Ronaldinho. A mesma coisa vale para outras observações de Rutledge, como dar espaço nobre para versão impressa ( resquícios da herança cultural do jornal), os tópicos do jornal (herança cultural) e os mais lidos (uma questão que deve pautar a edição da home).
  • Ruídos de ads: aqui, Rutledge deu uma bola dentro e fora ao mesmo tempo. Sim, o modo como os anúncios são vendidos é um inimigo do índice de atenção do usuário, mas o fato é que se o comercial vendeu, é lei. Sim, jornais deveriam se esforçar em criar espaços não-invasivos e convencer as agências de publicidade a saírem de suas zonas de conforto para de fato tentar ajudar o cliente (ok, aqui, o delírio utópico é meu. Desculpem. escapou). Cada anúncio de goma de mascar que entra antes de você saber o que queria numa home cria aversão comprovada ao site e ao anunciante e isso deveria ser levado em conta).
  • Manchetes: as manchetes num site são a turbina da publicação. Alguns sites brasileiros, gerenciados por moluscos em coma, acham que na manchete eles podem “enganar” o usuário vendendo mais do que têm, mas isso não é a regra, é a conseqüência da equação educação ruim na universidade+ salários ruins+aperto de orçamentos.
  • Edição: herança cultural do jornal. Em nenhum lugar deve haver menção a “edição” porque não existe mais deadline. O deadline é já.
  • Popularidade: nãopode ser tratada como conteúdo editorial, como argumentou Rutledge, mas é indispensável em termos de audiência. Se as pessoas votam num candidato porque ele está na frente, imagine como elas se comportam para escolher notícias. Life is tough. Tem que ter – mas sem uma caracterização de “editorial”.
  • Notícias x Social media: um dos erros mais grosseiros de Rutledge (“News is not social media”). Originalmente, quando surgiram há séculos, as notícias eram “social media” (veja o especial genial da Economist sobre a indústria da notícia). Bola fora cósmica.
  • Quality news” é vaiosa e por isso tem de ter um custo”: fato. A questão é descobrir como cobrar por esse custo. Rutledge erra de novo ao sugerir que matérias “especiais” (“Featured”) não existem. Essa é exatamente a maneira de se cobrar por uma matéria (uma adequação lógica do excelente sistema do FT.com que cobra do usuário que lê muito e não do que lê pouco).
  • Opinião: tem de estar separado do noticiário porque não é a mesma coisa. É verdade, embora a gestão editorial disso possa ser feita para que se tire benefício disso em um e em outro.

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.