Criar informação com menos custo e mais foco é possível

Como mercado de jornais mais dinâmico do mundo, a Inglaterra já sente há muitos anos o drama dos jornais locais que estão definhandoao redor do planeta, exceção feita a localidades que têm uma circunstância extraordinária (como o Brasil, em virtude do crescimento econômico anômalo). Assim cortes em jornais regionais vêm acontecendo desde o começo da década passada e continuam a acontecer. Em vez da tradicional choradeira dos restos cadavéricos dos sindicatos, associações profissionais e donos de empresa poderiam tentar pensar em formas alternativas de gerar a commodity “notícia”.

A National Union of Journalists violtou a descer o sarrafo na política de gerenciamento das empresas jornalísticas pela desvalorização da matéria-prima dos jornais – a notícia – por conta do excesso de conteúdo gratuito existente na Internet como o despertador da falta de interesse nos jornais. Deixando de lado alguns sofismas (como o conteúdo ser “gratuito” e  abundância desse conteúdo ser o despertador da falta de interesse nos jornais), a NUJ não deixa de ter razão  quando ataca a má gestão pela vulgarização do produto. O incômodo é que o sindicato não se preocupa nem coma  sociedade nem com os jornais. Se preocupa com os profissionais daquela categoria, Se o resto da sociedade passar fome, muito bem.

Na mudança em curso na gestão da informação, os jornais perderam  – e perderam mesmo, sinto muito – a posição de hubs que podiam decidir para onde a informação ia. qual informação ia e a que custo ela ia. O poder sociopolítico oriundo dessa configuração está com os dias contados.  Da mesma maneira, os jornalistas, que se orgulhavam de ter uma inserção na fatia do poder que era absolutamente desproporcional ao seu salário e condição social, também rodaram. O meio de produção se democratizou e, ao contrário de médicos e advogados, que podem exercer sua profissão com exclusividade graças a uma careira profissional, o jornalista agora precisa se reinventar. E o jornal também.

O produto gerado pelo jornal tornou-se caro. A estrutura não funciona mais. São muitos intermediários envolvidos no processo que não têm nada a ver com o cerne da coisa. Manter um jornalista em regime de exclusividade para escrever até o sangue jorrar dos seus dedos ficou caro e improdutivo. E para o jornalista, por mais que ele tenha topado trabalhar por menos grana, a coisa chegou num ponto em que como o valor de seu salário ficou irrelevante no custo como um todo, nem que ele escreva até cair morto, conseguirá produzir o suficiente para gerar produto [notícias] suficiente para sustentar toda a máquina.

A reinvenção passa por onde pode passar. Jornais, como conhecemos, estão fadados a desaparecer se não se adequarem ao novo meio-ambiente. Perdida a vantagem competitiva das redes de distribuição (sim, senhores, porque os jornais não prevaleciam porque eram melhores ou piores, mas porque conseguiam m atar concorrentes que não tinham a rede de distribuição, cabe reencontrar o público leitor onde ele estiver  (porque o público não é mais o mesmo público cuja localização era geograficamente determinada) e saber o que ele quer. Para isso, no lugar das redações caras e imensas, apostar no conteúdo gerado pelas comunidades afins é uma saída, porque essas comunidades sabem os interesses e preocupações delas mesmas. Em vez de controlar o sistema, o jornal pode passar a deter um papel de mediador e revisor e guardar para si somente as tarefas que demandem mais expertise e talento – e nessas matérias, que realmente têm uma qualidade extra, cobrar como conteúdo premium.

Antes que o jornalista busque a gilete para cortar os pulsos, vale a exortação de uma reflexão. O papel do jornalista está muito longe de ter acabado. Ele é, por excelência, um filtro dos acontecimentos de quem a sociedade espera uma curadoria de conteúdo. Antes dos jornais transformarem os profissionais em máquinas de escrever textos burros seguindo diretrizes dadas por um manual lobotomizante, era exatamente isso que fazia o jornalista – entrar em contato com o fato, com a fonte, deixar a sensibilidade escutar o que não era audível a todos e informar. Nisso, o jornalista – o bom jornalista – ainda é imbatível e não precisa ter medo de competir com a geração de informação vinda das comunidades mais variadas. O papel de curador está vivo. O jornalista é que precisa saber vender seu papel e os jornais a entender a necessidade que têm, além de, é claro, aceitar que o processo passou a ser de duas mãos. A figura do jornalista renasceu, mas se fundiu em duas: a do jornalista profissional e a do jornalista ocasional. Fora esses, não existe, porque escrever qualquer coisa de pijama achando que sabe de tudo não é jornalismo.

Abriga que a sociedade, empresas jornalísticas, jornalistas profissionais e ocasionais e leitores terão, nos próximos anos, de redefinir seus papeis e prioridades. Reservas de mercado corporativas que vêm do século XIX não têm mais vez. Donos de empresas jornalísticas que ficam chorando que não ganham mais a mesma fábula que ganhavam quando Jesus era criança, também não. O processo informativo está sendo moldado agora segundo as necessidades aparecem. Ganhar dinheiro ou não com isso é questão de fazer o que um jornalista sempre soube fazer: prestar atenção.

 

Cassiano Gobbet

I am a journalist, interested in everything related to the equation technology + communication.