Redes sociais: uma ferramenta a mais para os jornalistas

“Essa história de leitor escrever querendo ter opinião é um saco. Ao leitor, deveria ser permitido somente escrever para dizer que gostou”. A opinião me foi dada por um luminar do jornalismo, um dos melhores textos que já conheci. Verdade, um profissional de outra época, mas jornalista na melhor acepção da palavra. A observação dele, contudo, é uma assunção que 99% dos jornalistas têm de forma privada e não têm coragem de assumir. Só que esse ganho de voz dos leitores não é ruim. Ele pode melhorar o trabalho do jornalista.

Primeiro, vamos fazer um parêntese: é inegável que a quantidade de idiotices e asneiras às quais as redes sociais e outras ferramentas de conexão nos expuseram são de dimensões cósmicas. Mas a a barbárie e a decadência humana não começaram com Mark Zuckerberg. A capacidade de raciocínio do cidadão médio é desgraçadamente frustrante. “O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor comum”. A observação é de Winston Churchill, antes da ascensão de Hitler ao poder. Não é de hoje que as pessoas não gostam de pensar. Mas há muita gente capaz de pensar e separando-se o joio do trigo, haja visto que somos em seis bilhões nesse caótico e autodestrutivo planeta, mesmo que em minoria, os focos de lucidez ainda existem. E graças à revolução na comunicação, podem chegar a nós.

Um relatório do Pew Internet & American Life Project ajuda a entender isso. Depois de falar com mais de 2 mil usuários americanos, o estudo traçou um perfil do membro das redes sociais e delineou características que dão esperança inclusive aos jornalistas desesperados tanto com a quantidade de feedback digno de um molusco dopado quanto com o receio de que sua função na sociedade escorra pelo ralo. A conclusão básica é que estar conectado pode ajudar muito no papel de gatekeeper da informação.

O jornalista se sente – e é, ao longo da história – o responsável por dizer à sociedade o que está acontecendo. Esse é um dos poucos prêmios que a carreira oferece, uma vez que jornalistas que ficam ricos com a profissão quase sempre já deixaram de ser jornalistas (embora às vezes fiquem em negação quanto a isso). Assim, o crescimento do papel do leitor/usuário comum na ágora da informação fez com que jornalistas e meios de comunicação grunhissem em relação aos riscos que eles apresentam à democracia. O medo corporativo se explica, mas é desnecessário. As mídias sociais e afins não são um perigo. O relatório da Pew revela que usuários de redes sociais se abrem mais às opiniões diferentes, são mais confiáveis no que diz respeito às próprias opiniões, são mais politicamente engajados e afins. Esses usuários – cuja “população” dobrou nos últimos três anos – também estão mais expostos às notícias, opiniões e ação da mídia como um todo.

Para o bom jornalismo, aqueles cujos preceitos não mudam, os riscos aumentaram, sem dúvida. Os opinionistas irresponsáveis e sensacionalistas amplificaram muito sua voz (uma notícia bombástica, verdadeira ou não, circula com muito mais rapidez do que uma opinião ponderada), é mais fácil espalhar um boato hoje do que há dez ou vinte anos e com uma quantidade infinitamente maior de experts, o bom jornalista precisa de muito mais tempo para se estabelecer – e às vezes, nem com todo o tempo do mundo, conseguirá, enquanto o “patife informativo” pode impulsionar sua carreira – e ganhos financeiros – meteoricamente. Trata-se, entretanto, de uma adequação tecnológica à qual as pessoas levarão tempo para se acostumar, mas que no fim, definirá que tipo de profissional a sociedade quer. Se uma sociedade decidir que perefer mentirosos, estelionatários, irresponsáveis e falastrões, ela pagará um preço por isso. Sociedades mais civilizadas certamente vão fazer a escolha certa, não porque são melhores, mas porque se trata de um mecanismo de autopreservação. Mesmo numa sociedade cada vez mais irracional, é dessa sociedade que emana o poder, e o relatório da Pew (que vale uma lida) indica que é mais fácil saber o que as pessoas pensam com a conexão social informatizada.