O mundo – ainda – precisa de jornalistas

Numa entrevista dada à Deutsche Welle, o presidente do Comitê de Proteção aos Jornalistas, Joel Simon, reafirmou a necessidade que a sociedade tem dos jornalismos e estabeleceu uma linha dividindo jornalistas e blogueiros que vai muito além do patético diploma inútil vendido por algumas escolas. “Blogueiros podem ser jornalistas, mas nem sempre o são”. O Citizen Journalism é uma farsa quando pretende dizer que qualquer um que escreve é jornalista, mas não quando diz que qualquer um pode ser – especialmente com a ajuda da tecnologia.

Simon é um defensor de longa data dos blogs como ferramenta jornalística e talvez tenha se excedido no começo da época da ferramenta, mas ele mesmo se adequou à realidade ao observar que novas ferramentas (como o Facebook ou Twitter) podem ser igualmente relevantes. A observação de Simon é fundamental para dividir o que a maioria das pessoas gosta de pensar: que ao escrever qualquer coisa, torna-se jornalista (bem como ao se trabalhar num orgão de imprensa ou fazer uma escola que, no caso do Brasil, diploma analfabetos funcionais). “Em sua forma mais básica, jornalistas são pessoas que disseminam infomação de interesse e relevância para o público”, definiu Simon. Ele adiciona que não há a necessidade de uma licença para isso, mas que não basta escrever para ser jornalista.

A revolução tecnológica que abriu a profissão para absolutamente qualquer um é o pesadelo das grandes coprporações que tinham sua audiência garantida por concessões, grandes estruturas e tradição. Essas grandes corporações tiveram um grande papel ao delimitar o espaço do jornalismo nas sociedades mais avançadas (ainda que isso tenha significado muito lixo como tabloides sensacionalistas, Big Brothers e ex-qualquer coisa que assumem jornalismo como nova função depois de encerrada uma carreira qualquer). Nas sociedades nas quais essa tradição não existe, o papel do jornalista é o mais vital para a sociedade como um todo, vide casos da Síria, Iraque e outros países árabes sob repressão.

O papel de zelador da sociedade é inerente ao jornalismo, embora a função não pertença mais a um grupo profissional, sugerindo o que talvez seja uma das primeiras profissões na sociedade que se libertam do corporativismo (como médicos e advogados, por exemplo, que mantém criminosos entre suas fileiras para garantir uma imunidade concebida na faculdade). “Próprio do jornalista, antes de tudo, é “ver”. E, uma vez visto, dizer o que viu. (…) Pois do jornalista não se exija que construa senão aquilo que lhe é próprio construir: uma opinião pública bem informada, atenta, vigilante, esclarecida”. A definição de Carlos Lacerda (cuja definição da profissão é muito adequada, embora seja maldita por contade sua postura política conservadora até a medula). O papel dessa zeladoria passou a ser de qualquer cidadão, como é justo que seja, embora o mérito da função ainda esteja ligado a práticas cansativas e onerosas psicologicamente que muito poucos têm capacidade de suportar.