Mídia esqueceu o “think global and act local”

Uma matéria da Associated Press informa que a FCC, a Comissão Americana para a Comunicação, revelou num documento que há uma escassez relevante de informações locais em função do caráter globalizante da Internet. Esse problema não é novo. Me lembro de ouvir essa preocupação do meu colega Celso Unzelte há pelo menos oito anos.

Segundo o FCC, a trilha que levou ao shortage de informação local é o seguinte: os jornais (que são os meios que mais diminuíram suas coberturas locais) sofrem com a queda de receitas em suas mídias tradicionais e tomam a única medida que conhecem – cortes de pessoal e diminuição do número de publicações. Na última década, o corte nos EUA foi estimado em cerca de 25%. Na prática, o FCC observa que o que aconteceu foi que escândalos não foram expostos, perigos à saúde não foram denunciados a tempo, eleições locais ficaram em segundo plano e desperdícios do governo passaram desapercebidos”.

Não temos no Brasil um órgão como o FCC. As entidades existentes e funcionais (ou seja, que se dispõem a observar o funcionamento da imprensa) são marginais (como o Obesrvatório da Imprensa), tímidas em função do telhado de vidro (jornalistas não podem se dar ao luxo de criticar os únicos possíveis empregadores) ou corporativas (como a Associação Nacional de Jornais, que, por razões óbvias, não haveria de explorar o assunto). Mesmo sem um FCC-BR, não é preciso ser um gênio para adivinhar que a tendência apontada nos EUA é global e se aplica aqui. Basta olhar a capa dos portais e ver o percentual de lixo de entretenimento pseudo-jornalístico que ganha as manchetes porque o que dá audiência são notas sobre reality shows ou coisa ainda mais fúteis.

O trend aqui (leia-se na comunicação e papel da imprensa e não somente no Brasil) é preocupante por vários sentidos – e extraordinariamente, quase não passa pela responsabilidade do Estado (talvez na inexistência de um órgão independente que possa apontar os erros cometidos pela indústria de comunicação). O primeiro é a inexistência da consciência da indústria do papel de zelador da comunidade (para citar uma figura criada pelo “maldito” Carlos Lacerda) que ela teria de desempenhar em função de explorar concessões. O segundo é a constatação da incapacidade da indústria de buscar alternativas para lidar com as mudanças de paradigma geradas pela tecnologia.

No primeiro caso, apesar de preocupante, não é difícil de entender. A política de comunicação no Brasil é desde sempre uma filha das raízes históricas oligarco-escravocratas que aportaram na Bhia em abril de 1500. O caráter governista e pró-establishment da imprensa (que quase sempre operou vendo a sociedade como um incômodo em vez de um cliente) fundamentaram a ética da indústria que vê o lucro da organização como um fim em si só, sem se dar conta que o negócio tem certas particularidades que são mais relevantes do que os ganhos. Na prática, a sociedade deixou de ter um set de notícias muito relevantes porque elas “não davam audiência” dentro da lógica do negócio. Só que, infelizmente, jornalismo não é um negócio como outro qualquer e nem sempre os artigos que devem ser abordados são os que dão mais lucro. É possível também questionar a parcela de culpa que a audiência tem em procurar o noticiário mais frívolo em detrimento do mais necessário, mas isso é assunto para uma discussão separada.

No segundo, o panorama é preocupante para jornalistas e sociedade, mas deve (ou deveria) ser desesperador para os donos de empresa de mídia. O estrangulamento da sua capacidade operativa em termos de pessoal está diretamente ligado à inaptidão de seus quadros em lidar com as novas mídias. Ainda que a convergência seja a palavra de ordem para qualquer gerente são, as empresas no Brasil (e muitas no exterior) têm medo de tirar o cerne de suas operações dos núcleos que as fizeram ricas e pujantes durante as últimas décadas, mas que agoram começam a se necrosar a olhos vistos, mas cujo mau cheiro é encarado com negação pelos seus gestores – até porque esses não enxergam alternativas válidas para os novos tempos.

Pelo menos, os gestores brasileiros podem argumentar que não estão lidando (mal) com um problema típico do Brasil. A dificuldade/incapacidade de se gerenciar com o switch tecnológico meteórico aflige de fato as empresas mais ricas e bem-sucedidas, uma vez que é difícil aceitar a necessidade de se mexer na galinha dos ovos de ouro. O dramático aqui é que ao contrário da fábula de Esopo, a galinha está fadada a morrer se não tiver uma intervenção cirúrgica de gente que entenda do assunto.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.