Huffington Post: sucesso é atenção ao usuário

Numa época onde os jornais vendem cada vez menos anúncios, têm cada vez menos leitores e enxugam cada vez mais suas redações, a notícia de que o Huffington Post, megablog de Arianna Huffington que passou da competição dos blogs a peitar o NYT, deve abrir uma edição britânica, deve dar um complexo de asno nos editores da mídia tradicional. A pergunta óbvia é: o que que ela tem que eu não tenho? E a resposta (menos óbvia) é: muita coisa.

Toda empreitada exige sorte. Nelson Rodrigues dizia que sem sorte não se chupa nem um chica-bon. E é difícil imaginar que o HP tenha conseguido arrebanhar o sucesso que tem se estivesse cruzando com gatos pretos aos borbotões. Mas sorte tem pouco a ver com o resultado. O noticiário do Huffington Post pegou por algumas razões que vão bem além da sorte e que desancam a maioria dos preceitos jornalísticos que ainda são tratados como verdades, tanto nas redações midiossáuricas quanto nas escolas de jornalismo (onde se faria um grande favor em tentar preencher lacunas mais básicas como…gramática).

Lendo sobre a história do HP, uma das descobertas é a do foco. O blog nunca pensou em estender seus domínios para outras mídias, versões impressas, concessões, rádios, etc. O foco era “noticiar” e não “gerir uma empresa jornalística”. Só aí, você já consegue se livrar de uma boa penca de executivos de ótima conexão no mercado, mas que não conseguem fazer uma nota sobre um atropelamento. Além disso, você impede que algum marqueteiro espertalhão enterre grana do seu rico orçamento num projeto “inovador” que no fim vai enriquecer só os fornecedores do projeto e meia dúzia de colaboradores com salários overrated.

O foco do HP ajudou na definição do público e por competência, os huffingtons conheciam seu público. Sabiam como ele se comportava, o que fazia, o que importava, o que eles não suportavam e tudo mais. O “eu acho” da redação, aparentemente era formado por gente extremamente antenada com o que estava fazendo. Numa redação tradicional, certamente seria um guru contratado por ter bons contatos na direção, mas que se revelaria uma anta.

Fazer noticiário conhecendo o público não é uma arte antiga lapidada por antigos sátrapas tatuados. Os jornalistas (e aqui me refiro só aos profissionais que merecem o título, ou seja, não necessariamente os diplomados, empregados, etc) tendem a se ver como os detentores de um poder único. Numa palestra na semana passada, o jornalista Paulo Markun falou sobre como os jronalistas se vêem como copistas pré-gutemberguianos que estavam certos de que JAMAIS leitores trocariam seus textos por reles…blogueiros. É a cegueira de Saramago em versão arial 14.

É possível listar uma série de razões práticas para o sucesso vertical do HP, como o mapeamento de assuntos que estão bombando, a atenção a matérias que estão se tornando virais, a habilidade para contratar profissionais que enxerguem o modus operandi do jornal, a manutenção de estafes reduzidos, gerenciamento de colaboradores e etc. Contudo, o core do acerto está na atenção ao usuário – não tratando-o como um reizinho que pode fazer o que quiser, mas conversando com ele na língua dele. Mesmo sem um aparato gráfico fantástico (admitamos, o HP é bem feinho), o ex-blog e agora concorrente do NY consegue nadas na mesma piscina onde estão as pessoas que o lêem. Como disse Markun, na mesma palestra, “o jornalismo está aí para ser feito, só que de outra forma”. Traduzindo para os media moguls que talvez não tenham entendido, “a grana ainda está toda lá – basta saber pegar”.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.