Esfacelamento da comunidade tradicional é ruína da indústria jornalística

Uma das vantagens assustadoras do mundo digital é o fim a distância. Dependendo da sua disponibilidade de ficar com estresse crônico pela ansiedade da informação, você tem todas as condições de ficar sabendo tudo o que acontece em todos os lugares do  mundo em tempo real (claro, talvez você não consiga processar tudo, mas isso é outro problema). O fim da distância trouxe, para o jornalismo, uma revolução como jamais tinha conhecido desde o momento em que Gutemberg inventou o tipo móvel. O fim da distância desinventou a realidade física, recriou os mapas organizacionais (criando outros mais verossímeis, ainda que intangíveis), e, principalmente, desmontou as comunidades, atacando o pilar central da falência do modelo jornalístico em cima do qual a indústria está montada. E agora?O início do novo império...The Daily Dot

Bem, agora, ninguém sabe. Entretanto, há gente que consegue ver um pouco além da neblina momentânea na indústria e que certamente está mais próximo da verdade que conta do que a massa. Num artigo muito interessante, o fundador do Daily Dot, Nicholas White, explicou por que razão ele resolveu tentar fazer um novo modelo de jornal (que conta com outros colaboradores como o neoinfotechie Nova Spivack). Make no mistake: White não é um neófito moderninho iludido contra o peso da experiência da indústria tradicional. Ele deixou o negócio da família que é exatamente de uma cadeia de rádios e jornais nos Estados Unidos, estabelecidos desde a metade do século XIX. Não se trata de alguém que vê o negócio de fora.

White e o Daily Dot partem de uma premissa muito relevante. Mais do que a inundação de informação, a agilidade dos pequenos fornecedores de informação e as facilidades digitais que nas grandes corporações  encontram imensas dificuldades burocráticas (Geoff Livingston fala no prefácio de seu livro Welcome to the 5th State de uma corporação multibilionária americana na qual para um mísero tweet é preciso a aprovação de sete níveis gerenciais), White-Dot argumenta que está o esfacelamento da comunidade tradicional. Os jornais se calcavam nas pessoas que se encontravam na rua principal da comunidade, mas hoje essas pessoas não se encontram mais lá. As comunidades agora se dão por laços virtuais que delimitam novas realidades e mapas organizacionais que não são tangíveis, mas que são paradoxalmente os únicos reais.

A proposta do Daily Dot pode parecer desconfortável para quem está acostumado a receber seu jornal falando do buraco na sua rua, mas numa análise mais fria, o leitor desse jornal deve (ou deveria, se tivesse todas as faculdades mentais funcionando bem) se perguntar por que razão ele está pagando para recebem em papel um set de informações que ele já sabia no dia anterior, normalmente de graça  e com uma variedade de reflexões que o jornal não tem como preencher de antemão. Assim, o DD quer restabelecer os conceitos de comunidade para que as pessoas sintam que estão falando de sua própria realidade e dentro dos parâmetros de tempo e espaço que dizem respeito às suas vidas e não ao cronograma de funcionamento dos jornais que é basicamente o mesmo há mais de um século.

O “desconforto” que eu menciono acima é absolutamente natural porque a proposta do DD está de acordo com uma realidade não completamente  consolidada e que ainda não é percebida pela maioria esmagadora das pessoas – mas o será (ou pelo menos tudo indica isso). Na teoria, pelo menos, o argumento de White me convence muito mais do que as razões para satisfação dos jornais tradicionais no Brasil, que passaram a vender mais publicidade por uma razão circunstancial (a economia dobrou de tamanho nos últimos 12 anos). Causas estruturais importam mais que causas circunstanciais. Nesse aspecto, não há como questionar de White e do Daily Dot.

 

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.