De fornecedores a distribuidores de conteúdo

Raramente um setor da indústria – qualquer indústria – está preparado para mudanças que mexam no cerne de sua atividade. Por exemplo (citando o jornalista Paulo Markun), os copistas católicos pré-gutemberguianos dificilmente poderiam entender que a sua atividade não faria mais sentido com a invenção da prensa; fabricantes de artigos como máquinas de escrever, carburadores de motores a combustão e enceradeiras não conseguiam vislumbrar um mundo sem suas presenças; massagistas de times de futebol não imaginaram que a ciência traria novas formas de se evitar contusões. O jornalismo tradicional sofre o mesmo mal. Mas se evitada a negação freudiana, há saídas.

Grandes empresas jornalísticas estão começando a ter seu maior trunfo – a estrutura – transformando-se num peso por conta dos custos que elas acarretam. Com a hemorragia de audiência para novas mídias, as dificuldades de se encontrar receitas alternativas tornam o problema mais sério. Contudo, a grande dificuldade talvez seja a de se desprender do passado lucrativo para fazer conjecturas e planos para o novo cenário.

A produção de conteúdo colaborativo é uma delas. Um jornal em Vermont, nos EUA, o Burlington Free Press, tem uma história quase bicentenária. É um dos exemplos da liberdade que o país viveu até o início da década de 80, quando a liberdade de imprensa e de mercado ainda faziam dos americanos a sociedade mais progressista do mundo. O país tinha milhares de jornais de circulação com mais de 100.000 cópias diárias e praticamente toda cidade de mais de 10 mil habitantes tinha pelo menos um jornal local que vivia profissionalmente.

No mundo todo (mesmo nos países que têm um mercado de jornais muito mais maduro que o brasileiro), o setor de jornais locais foi o que mais sofreu com o aparecimento das mídias digitais. A globalidade da Internet ampliou o horizonte das pessoas e fazer jornalismo local começou a parecer sem sentido, pelo menos comercialmente. Os anunciantes (mesmo locais) começaram a encontrar outras maneiras de chegar aos seus públicos, as tiragens de jornais caíram e grandes grupos de comércio chegaram às cidades menores matando os comerciantes locais. Claro, ao adotar indiscriminadamente o uso de agências de notícias (e sucateando suas redações) os jornais locais já tinham dado um tiro no pé, pois mataram sua vantagem concorrencial – o jornalista que conhecia os problemas e circunstâncias locais – mas essa é outra história.

Na concorrência com o universo de notícias globais, o site do Free Press é bastante singelo , o que é de esperar no confronto de uma empresa pequena contra titãs globais. A concorrência, no entanto, passa para o lado da publicação no departamento dos blogs dos editores. Lá, o jornal perde parte de seu controle, mas ganha um novo tipo de leitor, aquele interessado na discussão de assuntos mais ligados à comunidade por parte de pessoas que estão na comunidade,  e ainda assim, endossadas pela marca de um jornal que confiam.

O feature dos blogs do Free Press têm similares no Guardian e na BBC, e apesar de uma boa ideia, não é explorada tão bem quanto poderia (explico isso abaixo). Os blogs contam com a força do nome de bons jornalistas, algo que somente um órgão de mídia pode proporcionar. A parte de abrir mão do controle editorial é que pega na hierarquia das empresas, porque em seu blog, o jornalista é o rei. Claro, não se deve esperar que um jornalista da rede de TV X fale mal da mesma (ou melhor deveria se esperar isso, mas por razões óbvias, não acontece), mas há mais independência, ao menos no que tange o noticiário geral.

Quando falamos de cobertura local, então, os blogs deveriam se ocupar tremendamente do hiato deixado pelas grande publicações, que buscam dar às cidades uma cobertura nacional, enquanto não falam do que acontece na rua delas. A capacidade de apuração é limitada ao local enquanto não houver alguma descoberta na física que altere isso. Os moradores de Vermont têm todas as razões para se dar conta de que é melhor confiar em alguém que esteja lá, e não em algum hub tecnológico de Bangalore.

Aqui é que a coisa fica interessante: os bloggers, que graças ao avanço tecnológico comeram as canelas dos meios de comunicação tradicionais assim como os roedores fizeram com os dinossauros que não tinham sistemas nervosos em todo os seus corpos, poderiam ser uma grande ferramenta para esses grupos. Redes de produtores de conteúdo – remunerados, bem entendido (porque a história de “Você Repórter” é simplesmente arrebanhamento de trabalho escravo) – poderiam perfeitamente dar aos grandes grupos de comunicação a capilaridade que eles não têm. Grandes redes de comunicação fazem isso com os stringers, jornalistas sem vínculo trabalhista efetivo mas que podem ser acionados em regiões onde não há um escritório ou um correspondente. Entre blogueiros e fornecedores de conteúdo eventuais, todo mundo poderia sair ganhando.

O estabelecimento de redes de fornecedores de conteúdo não-formais  esbarra na legislação trabalhista mesozóica (voltando a falar em dinossauros…) que poderia criar problemas a quem está tentando resolvê-los. Mas a ineficiência corrupta do governo, assim como o tiro no pé mencionado alguns parágrafos acima, também é outra história.

Uma coisa parece ficar cada vez mais clara: a época de umas poucas empresas detendo 70/80% da audiência acabou. A vascularização dessa audiência tornou o jogo menos autoritário (não é democrático ainda, porque as chances no jogo estão longe de ser iguais), e os dinossauros terão de aprender, por bem ou por mal, a compartilhar os ganhos aos quais seles se acostumaram na época das concessões decididas em negociatas políticas, cartéis e monopólios. Para os que se livrarem da carcaça antiquada com mais rapidez, a chance de sobrevivência no novo ambiente passa a ser bem maior.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.