BBC quer fazer jornalismo direto do iPhone

Soa paradoxal dizer que a mídia se ressinta da evolução meteórica da tecnologia, mas o fato é que a facilidade de manipulação de conteúdo pelo usuário normal tornou ele mesmo – usuário – um possível competidor para o trabalho daas majors da imprensa. Porém, nem tudo é tão sombrio quanto pode parecer para as grandes corporações de mídia no que diz respeio à evolução tecnológica. As empresas que tiverem flexibilidade para cortar na carne hoje, podem ter ganhos operacionais grandes, como está fazendo a BBC.

A gigante britânica foi uma das primeiras grandes coproporações no Reino Unido a apostar num departamento de New Media, enquanto a concorrência em boa parte do globo abriua redações de Internet. A miopia da concorrência e a inteligência da BBC têm explicações: nas grandes companhias de mídia, departamentos com mais poder e receita sempre tiveram medo de incentivar o crescimento de setores que estivessem fora de sua alçada (o que significaria perda de poder), e por isso, preferiram contratar estagiários para fazer um noticiário-salsicha com os substratos de suas redações “sérias” para ser reproduzido na Web. A BBC conseguiu escapar da tendência por conta de seu orçamento então mastodôntico.De acessório a fulcro do trabalho...iPhone

Agora, graças à cegueira típica de conservadores mumificados como David Cameron, a empresa da qual os britânicos mais se orgulham deve estar dando graças a Deus de ter apostado num departamento de NM há quase uma década. A cobertura digital da BBC consegue converter com mais rapidez do que a média das concorrentes os benefícios tecnológicos que baixam os custos de sua operação. Com Cameron sedento por amputar as verbas da BBC, a saída pela direita de explorar as novas mídias vêm bem a calhar.

A mais recente novidade é o desenvolvimento de um software para iPhone que permitirá aos jornalistas da emissora de reportar com áudio, video e texto diretamente do local onde estiverem. Não se trata de redescobrir a roda. Já há no mercado alguns apps que possibilitam a filmagem e edição com multitrack de som e exportação de arquivos do gênero. Contudo, a indústria é reticente de sair de sua cômoda posição de liderança. Como disse o jornalista Paulo Markun numa palestra dada na semana passada, jornalistas e empresas de mídia estão fadados a desaparecer como aconteceu com os copistas, caso não se reinventem radicalmente.

Há alguns anos, a discussão sobre a relevância do citizen journalism e seu impacto no jornalismo tradicional teve peso, mas não levou a nada. Um cidadão comum que pose algo em seu blog não faz dele um jornalista. Se esse cidadão, contudo, passar a transformar-se num pólo de emissão de informação, opinião e conscientização, ainda que seja sem uma estrutura formal, daí sim, estará oferecendo concorrência ao establishmnt da imprensa. Aí, entra a tecnologia e o modo como ela torna isso viável. A BBC, o Guardian e uns poucos grandes grupos de comunicação trabalham decididamente para desenvolver novas mídias sem compromissos com as publicações que deram origem aos grandes grupos hoje existentes. O alerta está dado à mídia tradicional há anos, mas todos preferem negar que o rei está nu. Um dia, alguém vai gritar e aí, será tarde demais.

About Cassiano Gobbet

Cassiano Gobbet is a professional with a BA in what used to be called "journalism". Following the digital tsunami that rebooted the industry, he is now interested in the possibilities that digitalisation brought to fill the information gap that society desperately needs.